Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Decrescimento economico. Loucura?


A sociedade hodierna baseia-se em crescimento econômico, crescendo a riqueza dos países podem-se oferecer empregos para os jovens que estão entrando no mercado de trabalho, construir hospitais, escolas e estradas. Até diz-se que se podem eliminar a pobreza. Este discurso vem, naturalmente, dos economistas e advogados. São eles que dirigem os países (aconselhando políticos), as empresas e os municípios.

Quando se defende idéias de crescer menos ou de decrescer, se procura um horizonte mais distante, que possa contemplar assuntos estranhos à economia, como a ecologia, por exemplo, como faz a Sociedade Brasileira de Economia Ecológica – ECOECO em que traz abordagens de um economista pouco conhecido como Nicholas Georgescu-Roegen. Em 1976, este romeno publicou um texto sobre entropia, ecologia e economia cujo título era o decrescimento. Nesta época ele advogava que a economia não pode crescer indefinidamente, pois se baseia em aspectos mecânicos – para a indústria funcionar necessita de matéria prima e energia. Tanto uma quanto a outra podem se esgotar ou, depois de usada, se encontrar em estado tal que não sejam aproveitáveis.

O crescimento também deve ser definido. O crescimento populacional já exerce demasiada pressão sobre os recursos ambientais; o crescimento do PIB não leva em conta a questão social e ambiental e o modelo energético baseado no carvão e no petróleo não suporta um crescimento mundial de 3% ao ano ou como o chinês do início do século XX, de cerca de 10%, por muito tempo.

O decrescimento aqui apresentado não é sinônimo de recessão ou crescimento negativo da economia, é uma necessidade para que não se tenha que tomar medidas mais drásticas num futuro próximo. Ainda não se pode provar, com 100% de certeza, que aja uma causa direta entre os problemas ambientais como o aquecimento global ou a subida do nível do mar e o crescimento econômico. Pode-se argumentar, entretanto, que o planeta não suporta o modo de vida dos povos dos países desenvolvidos nem muito menos pedir para que os outros países não queiram ter este tipo de padrão de vida.

Um decrescimento desejado, sem ser obrigado, trará mais empregos em energias alternativas, nos setores de serviços, embora possa oferecer menos horas trabalhadas, reduzir gastos com o setor militar e nos deslocamentos de pessoas e mercadorias. Dirigentes e políticos querem crescer, desenvolver, e a limitação dos recursos é assunto que não devem querer ouvir nem debater, pois vão contra os interesses dos eleitores, dos religiosos e dos empresários.

Alguns economistas mais progressistas, entendedores do assunto, procuram explicar a situação como se fosse uma lógica do mercado. Se se aplicar o dinheiro a ser gasto com as causas ambientais num banco, durante alguns anos, ter-se-á um montante justificável da inércia atual. Com esta lógica economicista se esperam grandes catástrofes num futuro próximo, maiores até que as enchentes, secas e furacões que assolam o planeta hoje.

Adriano Violante
Professor Universitário, Dr. em Ciências Ambientais

http://www.violante-ambiental.blogspot.com/

Domingo, 5 de Abril de 2009

O Decrescimento?


Fui convidada pela Associação Amigos do Concelho de Avis para falar um pouco sobre o decrescimento no Café com Letras por eles organizado quinzenalmente. Este encontro foi muito enriquecedor para mim, fiquei surpreendida com o interesse e a vida que as pessoas me transmitiram.

Foi-me também pedido para escrever o texto que se segue para o Águia, o jornal da associação.

O Decrescimento?
O decrescimento é um movimento de indivíduos, que um pouco por todos
os países industrializados, se questionam sobre o objectivo principal
da nossa sociedade actual: o crescimento económico.
A primeira coisa com que nos deparamos é mais que uma noção politica
ou idealista, é uma questão física! Não pode existir crescimento
infinito, isto é, sem limites, num mundo finito. Querendo isto dizer
que as matérias primas, sejam elas quais forem, terão, a um
determinado momento, um fim. Sobretudo se continuarmos a explorar
inconscientemente os recursos, sem nunca repô-los
As matérias primas que requerem a nossa principal atenção neste
momento são os combustíveis fosseis, não apenas pelo seu fim estar à
vista, mas sobretudo por cerca de 90% de toda a industria, comercio,
prestação de serviços, etc, se basear nestes para existir. Isto
significa que quando os combustíveis começarem a aumentar
consideravelmente de preço, por se tornar cada vez mais difícil a sua
extracção, o custo, por exemplo, da produção e transporte de bens de
consumo imediato aumentará, e muito. Deixará de ser rentável ir buscar
matérias primas à Ucrânia, que serão transformadas na Índia, embaladas
na China e vendidas em Portugal, porque todos os transportes serão
caríssimos, sem falar da energia necessária para a maquinaria, etc...
Será igualmente caro transportar o lixo que daí advêm para longe do
nosso olhar.
Com este exemplo apercebemo-nos que como consumidores somos
intermediários entre uma cadeia tentacular e espectacular de produção
e uma rede complexa de tratamentos de dejectos, com as quais, no nosso
dia a dia, não temos qualquer contacto e que desconhecemos quasi
totalmente.
Á primeira vista podemos pensar que o decrescimento se debate com
questões de ordem ambiental, pois, ao questionar os limites do
crescimento económico depara-se inicialmente com a destruição dos
recursos naturais, mas este questionamento leva-nos mais além,
damo-nos rapidamente conta da degradação social gerada por este estilo
de vida, o do sempre mais. Mais conforto, mais consumo, mais bens
materiais, mais trabalho, mais custos do conforto, mais tempo nos
transportes públicos ou nas filas de trânsito.
Por o capitalismo não ser uma ideologia, mas uma teoria económica, e
por isso não ter carácter político e social, é vazio a nível humano.
No entanto, tornou-se o motor impulsionador de quase todas as
sociedades, mesmo as de terceiro mundo. Uma sociedade baseada numa
teoria vazia não pode senão gerar uma sociedade com um enorme vazio
humano. A solidão já afecta milhões de pessoas no mundo ocidental, a
depressão é a doença do século XXI. Daí nos perguntar-mos, onde vamos
com esta sociedade em que os valores do foro da economia se sobrepõe
aos valores humanos?
O decrescimento baseia-se nestes dois pontos principais, o ambiente, e
os limites físicos do planeta, e as questões sociais.
O que fazer face a tudo isto?
A primeira coisa é tomar consciência. Quando se está consciente do que
se passa à nossa volta podemos tomar decisões e opções em função disso
e ter poder sobre o rumo da nossas vidas. Muitas pessoas em todo o
mundo fazem a escolha da simplicidade voluntária, o que, por outras
palavras, é optar por ter menos dinheiro, portanto, consumir menos,
mas ter mais tempo para si e para os outros. Ter um emprego em part
time, uma casa com uma renda mais baixa, ir para o campo cultivar a
terra, a auto suficiência, fazer hortas urbanas, são alguns exemplos.
A cada um a sua forma!
Uma vez em consciência podemos sempre ajudar os outros a olhar para o
mundo com olhos de ver. Quantos mais tomarmos decisões conscientes
mais fraco fica o sistema.
Apenas poderemos ter uma vida conforme a nossa vontade quando
construirmos um sistema mais adaptado às nossas necessidades humanas.
Construamos um novo presente!

Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

O que é a aldeia sustentavel?


Nos dias 29 e 30 de Novembro 2008, cerca de 30 pessoas reuniram-se no Centro social da Aldeia das Amoreiras motivadas pela vontade de responder à pergunta "o que é a aldeia sustentável?".



Desse encontro nasceu um documento, que se encontra disponivel aqui:
http://gaia.org.pt/node/14718

Domingo, 28 de Dezembro de 2008

A caminho da simplicidade voluntária (parte 1)


O decrescimento pode ter continuidade na vida pessoal de cada um através da escolha da simplicidade voluntária. Uma iniciativa individual que leva a acções colectivas.
Face aos problemas que afectam o nosso planeta, o decrescimento não é uma opção entre outras, é necessária. Não podemos impor um crescimento ilimitado a um planeta, a Terra, fechado e limitado. De facto, um tal crescimento assenta na utilização sempre maior dos recursos do planeta e gera resíduos cada vez mais abundantes; ora, neste momento, já ultrapassamos a capacidade de produção da Terra; consumimos o capital terrestre em vez de aproveitarmos os seus frutos; consumimos a capacidade da Terra de utilizar as suas multiplas substâncias químicas devido às invenções humanas, e para as quais a natureza não tem mecanismos suficientes de metabolização. Resultado: o equilíbrio do planeta tal como o conhecemos e tal como o necessitamos para a nossa sobrevivência está ameaçado a curto prazo. Vinte anos, cinquenta anos, cem anos até que os desastres batam à porta? A maioria vê esta ameaça muito longínqua, apesar de o seu modo de vida estar já, directa ou indirectamente, a ser afectado. E que são estes poucos anos na história da Terra, que data de milhões de anos, ou na história da humanidade, que conta centenas de milhares de anos? À escala de uma vida humana, a história da humanidade vive, talvez, os seus últimos segundos. E que fazemos face a esta perspectiva? Os que podem, consumem cada vez mais, os que não podem aspiram chegar lá o mais rapidamente possível. E os nossos governos puxam a maquina à sua capacidade máxima: “é preciso manter um crescimento contínuo para conseguir criar empregos e suportar o aumento constante do consumo.”.

O decrescimento escolhido ou imposto

Encontramo-nos, neste momento, num cruzamento de caminhos. Para os que conservaram uma certa lucidez, está claro que vamos atingir brevemente os limites inultrapassáveis do uso dos recursos do planeta. Acreditar que a ciência e da tecnologia podem fazer recuar indefinidamente os limites do consumo é apenas um mito perigoso. Os limites estão à nossa porta e são quase inevitáveis; a única dúvida está na ordem da sua entrada em cena. Veremos os nossos filhos criar monstros as custas de todas as substâncias mutagénicas que absorvem todos os dias através do ar que respiram, da água que bebem e dos alimentos que ingerem? A menos que já sejam estéreis, a baixa de produção de espermatozóides já está bem estabelecida no mundo industrializado... As mudanças climáticas transformarão os nossos países em desertos ou em pântanos? (...)

Claro, se nada for feito, e rapidamente, o momento de agir peremptoriamente vai chegar. Face às catástrofes os governos não terão escolha. Mas que tipo de sociedade será construída? Sociedades autoritárias com medidas restritivas impostas à maioria, mas decididas no topo, e podemos estar certos que estas beneficiarão os poderosos. A sociedade desigual arrisca de se tornar ainda mais mal concebida, com privilégios cada vez maiores para uma minoria.
Felizmente, no norte como no sul, mulheres e homens perceberam que globalmente estamos no caminho errado, que a via da mundialização que nos é apresentada como desejável e inegável leva-nos directamente à catástrofe. Perceberam também que já nada há a esperar dos governos, comprometidos e dominados pelo dinheiro. As nossas, assim chamadas, democracias ocidentais nada têm de democrático. Quando nos perguntaram antes de enviar soldados bombardear o Iraque ou o Kosovo? Antes que os alimentos geneticamente modificados terem invadido as prateleiras dos supermercados? Antes de mudar as regras do subsidio de desemprego? Antes de dar cabo do nosso sistema ferroviário? De facto, antes de tomarem todas estas decisões que afectam directamente as nossas vidas? Os que decidem por nós estão comprados pelas classes de capitalistas internacionais. A população aceita esta situação porque se deixa subverter pela forte máquina ideológica do capitalismo.

O maior perigo neste momento é a passividade. Apresentam-nos a mundialização como uma tendência inevitável, dizem-nos que depois do fracasso do socialismo, o capitalismo e a lei de mercado é a única via possível. Nada disto é verdade. Sem conhecer todas as soluções aos problemas sociais e ambientais com que nos deparamos, sem ter uma visão precisa do que será a sociedade ideal. Há certamente outras vias de acção que permitam o progresso para uma ecosociedade, uma sociedade em que os humanos vivam em harmonia entre eles e a natureza. Em suma, trata-se de abolir a submissão à economia e criar uma sociedade que favoreça o bem-estar completo de todos os seus membros.

Como fazer estas mudanças? Não tenho a pretensão de conhecer A estratégia a adoptar que nos leve a essa sociedade desejável onde todas e todos possam viver convenientemente, em comunidades solidárias onde os seus filhos poderão, mais tarde, viver. Mas a minha longa experiencia de militância, as minhas numerosas leituras e as minhas longas horas de reflexão levaram-me à estratégia que se segue. Acredito que por agora é necessário por em marcha acções em três frentes, que estão, aliás, intimamente ligadas:
1)Libertar-se do sistema: a cada um de tomar as medidas de forma a sair da cadeia de sobreconsumo- necessidade de ganhar muito dinheiro- stress e cansaço- passividade. A simplicidade voluntária é uma via que permite reencontrar tempo para viver e agir.
2)Unir-se para fazer mais com menos: desenvolvendo as nossas comunidades locais, damo-nos serviços que permitem viver melhor a menor custo e que responde melhor à totalidade das necessidades.
3)Criar organizações nacionais e internacionais eficazes que permitam que a nossa voz seja ouvida alto e bom som para impedir os governos de continuar esta via neoliberal. Não tenhamos ilusões, o capitalismo não cederá facilmente. Ao poder do dinheiro devemos opor-nos com poder dos números, da imaginação e da tenacidade.
Não tenho intenção de desenvolver aqui as duas últimas acções, mas não gostaria que se pense que é por as julgar menos importantes.

Serge Mongeau
Vers la simplicité volontaire em http://www.decroissance.org/

NT- a 2ªparte estará disponivel assim que possivel.

Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

Um homem morre esmagado por uma multidao de consumidores

29-11-08. Nos Estados Unidos, a "Black Friday", o dia depois do Thanksgiving, marca tradicionalmente o início das compras de Natal com saldos importantes a acontecerem nas lojas que abrem as suas portas de manhã cedinho. Sexta 28 de Novembro, esta tradição tomou uma direcção trágica na Wal-Mart de Long Island, no Estato de New York. Um empregado que vinha de abrir as portas para deixar entrar a multidão impaciente foi esmagado pelos clientes que se dirigiam aos produtos expostos. O homem, de 34 anos, morreu dos ferimentos. Pelo menos 4 pessoas ficaram feridas, inclusive uma mulher grávida, e foram hospitalizadas depois do incidente. Outros empregados da loja ficaram feridos enquanto tentavam ajudar o seu colega.
Kimberly Cribbs, que fazia parte das cerca de 2000 pessoas plantadas em frente do Wal Mart, afirma que os clientes se comportaram “como selvagens”. “Quando disseram às pessoas de sair porque um empregado tinham morrido, começaram a gritar: já há um dia que fazemos fila para entrar. E continuaram a fazer as suas compras”, disse à Associated Press. Como nos relembra a New York Times, tais cenas de histeria “tornaram-se normais durante o período chamado Black Friday”. “Foi uma tragédia, mas ao mesmo tempo sente-se que não foi um acidente”, denota o diário nova-iorquino, relembrando que nos Estados Unidos, comprar é “um desporto de contacto” e que as lojas sempre foram boas na arte “de criar um sentimento de falta quando estamos em plena abundância, uma ansiedade que nos obriga a agir imediatamente para não ficarmos à margem”.

Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

Nova E-zine


A Ecological internet acaba de lançar uma nova E-zine
The new earth rising http://www.newearthrising.org/
que promete empenhar-se no pensamento e acção para chegar a uma ecologia global de sustentabilidade. O primeiro numero tem diversos artigos interessantes, vamos ficar atentos!



Um excerto do artigo Transforming Toward Sustainability de

"As long as the goal of expanding production and consumption is considered legitimate, we are in danger of overshooting planetary limits and collapsing. When sustainability gains legitimacy, as our primary goal, the possibility will emerge for evolving a mature social form, capable of long-term well-being. It is a Question of Direction.

"Enough" is the cue indicating physical maturity. A caterpillar spends its entire life gathering natural resources and growing. When it is big enough, it stops growing and undergoes a change of purpose. The butterfly that emerges from its cocoon is beautiful, it lives very lightly on the Earth, sipping the nectar of flowers, and its primary purpose is to launch the next generation.

This image speaks to a sustainable future. If we were to gather our satisfaction from the beauties of life and use the material world primarily to provide nutritious food and energy efficient shelter, we too could safely usher the next generations."

Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008

2ª reunião de preparação da caminhada pelo decrescimento

DIA 13 Setembro (sábado), 16h no Jardim da Gulbenkian (junto ao lago, do lado da esplanada) - Lisboa
Por uma vida simples e solidária!


Quantos bibelos precisamos para sermos felizes?
A sobreprodução de todo o género de objectos de consumo futil transformou-nos, de cidadãos a consumidores. Tendo em conta que todo este frenesim consumista se baseia no petroleo barato e na sobre exploração dos recursos terrestres finitos, que futuro contamos deixar aos nossos filhos?
Debater e reflectir, experimentando uma forma de viajar simples mas rica em calor humano, tentando abranger todos por onde vamos passando, foi o que nos levou a tentar organizar uma caminhada pelo decrescimento em Portugal.

Informacoes: 964362223

Sábado, 26 de Julho de 2008

Primeira reunião - Decisões tomadas

Como previsto, decorreu no sabado passado a primeira reunião de organização de uma caminhada para 2009.
O que se decidiu:

Encontramos um nome: Caminhada pelo decrescimento

Criou-se um grupo de discussão para a organização: aberto a todos - para se tornar membro vá a: http://groups.yahoo.com/group/caminhadapelodecrescimento/

Discutiu-se tambem um possivel percuso, epoca do evento e as questões praticas, não tendo ficado nada de concreto decidido por se tratar de uma reunião inicial. Este blog servirá de plataforma para a divulgação e diário da organização. Não hesitem a contribuir, dar sugestões, ideias, etc.

Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

Primeira reunião

Vai acontecer no próximo sábado, dia 20/07/08, a primeira reunião de organização da Caminha de pós crescimento em Portugal (para 2009), pelas 17h na Horta popular da Mouraria (http://horta-popular.blogspot.com/), na intersecção da Rua Damasceno Monteiro com a Calçada do Monte, em Lisboa.

Aberta a todos os que queiram participar ou apenas saber o que é!

(demarche 2007, Bélgica)

Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

A caminhada do pós-crescimento 2008


Eu participei na caminhada de 2007, e pergunto-me se não seria interessante organizar uma caminhada em Portugal. Mostrar as pessoas uma forma diferente de estar na vida e de viajar, dar o exemplo, é uma forma muito eficaz de luta, e uma experiência muito gratificante para quem participa. Eu estou pronta a dar corpo e alma á organização de uma marcha em 2009 (talvez não em Julho e Agosto, uma altura um pouco mais fresca é capaz de ser melhor), mas não posso faze-lho sozinha...

O Pós-crescimento no País negro (A caminhada do pós-crescimento 2008)

Charleroi (NT. Bélgica) vai acolher a “démarche de l'après-croissance” (NT. Marcha do pós-crescimento). É a ocasião para reflectir sobre um princípio que, para os participantes, já demonstrou os seus limites.

Suscitar o debate, ao nível ecológico, mas também no plano económico e social, tendo como objectivo, um questionamento do nosso modo de vida. Tal é a marcha dos caminhantes do “pós-crescimento” que, desde o final de Junho, fizeram-se à estrada ou que a “apanharão”, por uma etapa ou mais se tal lhes aprouver.
No ano passado, ao ritmo do seu burro fetiche, eles tinham atravessado o sul do Hainaut e a região de Namur (NT Bélgica). Este ano vão passar pela região de Charleroi (NT- Bélgica).

Objectores de crescimento” Como o nome indica, a marcha, independente de todos os partidos políticos, sindicatos ou associações, reúne “objectores de crescimento”. Ou posto de outra forma, cidadãos que se interrogam sobre o crescimento económico da produção e do consumo nos países fortemente industrializados.
Pois esse crescimento, tendo-se tornado, aos seus olhos, um fim em si, sem responder às expectativas em termos de emprego, levou o mundo ocidental a um nível bem longe da distribuição justa do acesso aos produtos e aos recursos naturais, como nos adverte cruelmente a crise energética actual... Sem falar da degradação ambiental. E não é o famoso “desenvolvimento sustentável” que, para estes objectores, vai mudar grande coisa: é um conceito difuso que apenas serve para apertar, cada vez mais, a corda que nos aperta o pescoço...

Menos bens, mais laços Mas os objectivos da caminhada são mais concretos. É um local de trocas, de debates, de partilhas, de vida comunitária, na linha do slogan do decrescimento “ moins de biens, plus de liens” (NT menos bens, mais laços (afectivos, entenda-se)). É ter tempo para ir ao encontro dos outros, caminhantes e anfitriães que os acolhem no decurso da caminhada.
A Marcha está também muito orientada para a natureza e pelo respeito desta, nomeadamente tentando reduzir a pegada ecológica e privilegiando a utilização de bens de circuitos locais de produção, biológicos de preferência. Enfim, é alimentar a reflexão com iniciativas que permitam o respeito pelo planeta e os que aí vivem.

Qualquer um, qualquer que seja a sua idade, pode participar na marcha, o tempo que entender, e a todo o momento. As etapas não ultrapassam os 10 km diários. Não é preciso levar provisões, pois a alimentação é comprada dia à dia a produtores locais por um preço modesto. Já um equipamentozito de campismo convém levar.

Informações: www.demarche.org/2008

Benoît WATTIER
Vers l'Avenir de 9 de Julho 2008
(http://www.votrejournal.be/article/regions/provincehainaut/infoshai/l%C2%ABaprescroissance%C2%BB_au_pays_noir/166915.aspx)



Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

Vida Verde 2008 - Update

Novas informações relativas ao VV 2008:

22 a 31 de Agosto (datas definitivas)

NoVale do Dragão - Quinta do Tapado
Fiais da Beira no Conselho de Oliveira do Hospital

Tambem novo site internet:
http://www.vida-verde.net/

Tambem novo site internet:


Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

COMER LOCALMENTE, PENSAR GLOBALMENTE

Prof.ª Dr.ª Isabel do Carmo
Médica Especialista em Endocrinoloia e Nutrição

A ALIMENTAÇÃO E OS NOVOS MEIOS DE PRODUÇÃO
Os alimentos, tal como os outros produtos, estão hoje sujeitos a novas estruturas e meios de produção. No princípio do século XX ainda havia a agricultura tradicional. A meio do século XX instalou-se a indústria agro-alimentar, que tende a controlar tudo desde a semente até à comercialização dos produtos alimentares. Os novos meios incluíram a introdução de máquinas, que diminuíram o número de trabalhadores agrícolas e incluíram também meios químicos, como fertilizantes e pesticidas. A agricultura industrializou-se e a produção intensiva foi instalada. Nos últimos anos a produção de alimentos adoptou os meios da restante indústria - a informática. Também nesta área o reino da electrónica estabeleceu-se sem fronteiras. A rapidez de comunicação e de aplicação dos mesmos métodos trouxe uma mudança ao nível do objectivo e subjectivo, no que diz respeito à noção de espaço e tempo.

AS NOVAS FORMAS DE ESTRUTURA ECONÓMICA
Pode-se assim aplicar à análise da produção alimentar aquilo que se aplica a qualquer outro produto. No entanto, temos sempre que nos lembrar que se trata de um produto essencial à vida e com uma parte da produção obrigatoriamente ligada a um lugar, porque está ligada à terra. Porém, aquilo que se verifica é que há, na produção alimentar, uma abolição de fronteiras, uma abolição do conceito de nação e mesmo uma abolição do estado. Trata-se de um internacionalismo ... económico.

Ler continuação (em formato pdf) aqui

Segunda-feira, 2 de Junho de 2008

Encontro Vida Verde 2008

O Encontro Vida Verde 2008 realizar-se-á na ultima semana de Agosto, em Oliveira do Hospital. Todos os voluntários para a preparação do evento são bemvindos.

VIDA VERDE - INTRODUÇÃO, FILOSOFIA E OBJECTIVOS:

O que é o Vida Verde:
Vida Verde é um Encontro exclusivamente dedicado à partilha de práticas ecológicas, em que uma das finalidades é informar, sensibilizar e proporcionar a todos os participantes os conhecimentos e a sabedoria para viver uma vida mais Simples, Natural e Sustentável, que esteja em harmonia com a Natureza e com as pessoas.

A crescente instabilidade social e económica no planeta, cujas repercussões agravam severamente o ambiente, levam a que cada vez mais indivíduos e famílias comecem a procurar formas alternativas de vida que não sejam destrutivas e que, acima de tudo, sejam mais equilibradas, sustentáveis e justas, a nível ambiental e social.

Face às irreversíveis alterações climáticas e consequentes necessidades de adaptação, urge criar novos paradigmas de vida que minimizem ao máximo o impacto negativo no ambiente natural e social. Para que isto seja possível é necessário reduzir o consumo, reaproveitar recursos recicláveis evitando todos os desperdícios, reflorestar e adoptar métodos de agricultura ecológica, utilizar energia de fontes renováveis retendo-a ao máximo, implementar economias locais auto-reguladas e independentes dos macro-sistemas económicos, entre muitas outras abordagens mais sustentáveis.

Para mais informações ver o site:
http://vidaverde.eco-gaia.net/

Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

Semana sem TV - de 21 a 27 de Abril


És capaz de passar uma semana sem televisão??
Sejamos realistas, está na altura de escolher, a TV ou o planeta. A empresa do embrutecimento televisual ou um futuro desejável?

Vá sai da caixa! Estás fechado nela em média 3h30 por dia. Não vais passar a vida nessa prisão mental. Não vais deixar que todos esses animadores idiotas te despertem. A semana sem TV é a ocasião para partir o vidro, para se libertar da maquina de embrutecer. Vá anda, temos uma vida para viver e um mundo para transformar.

Sábado, 22 de Dezembro de 2007

O *consumo* nosso de cada dia... em dia de Natal

Publicado em [InfoNature.Org - PT]: Sugestões simples para ter um Natal e fim de ano melhor.

"As grandes firmas de relações públicas, de publicidade, de artes gráficas, de cinema, de televisão ... têm, antes de mais, a função de controlar os espíritos. É necessário criar "necessidades artificiais" e fazer com que as pessoas se dediquem à sua busca, cada um por si, isolados uns dos outros. Os dirigentes dessas empresas têm uma abordagem muito pragmática: "É preciso orientar as pessoas para as coisas superficiais da vida, como o consumo." É preciso criar muros artificias, aprisionar as pessoas, isolá-las umas das outras. (1)"

O consumo encontra-se instituído, na sociedade moderna e dita ocidental em que nos inserimos, como um valor cultural, como um elemento intrínseco ao(s) nosso(s) estilo(s) de vida e que nos caracteriza enquanto indivíduos. Na realidade, os princípios e práticas inerentes ao consumo, toda a sua dimensão sociológica e utilidade prática no seio do modelo ideológico neoliberal, passam ainda despercebidos à generalidade dos indivíduos e possuem uma preponderância crucial mas subliminar, profunda mas sonegada, na forma como os indivíduos se concebem (e são concebidos) enquanto seres sociais.

O consumo, por definição, é uma actividade que pressupõe a satisfação - geralmente por intermédio de uma troca financeira - de um conjunto de necessidades mais ou menos essenciais dos indivíduos. O cerne da questão é precisamente esse: quem é que determina o que é de facto uma necessidade essencial? Sendo todo o contexto social e cultural fulcral na forma como os seus valores são absorvidos - normalmente de uma forma inconsciente e automática - pela generalidade dos indivíduos, pode-se desde logo presumir que num contexto de acelerada globalização, em que o "American Way of Life" funciona como modelo cultural, social e económico homogenizador, também os conceitos a ele inerentes, como o do consum(ism)o, obedecem à mesma lógica de acentuada "mercantilização" da vida e das relações humanas à escala global.

Ou seja, a utilidade do consumo, numa lógica liberal, está muito longe de se esgotar nessa finalidade "básica" e até "anacrónica" de satisfação de necessidades essenciais à vida humana ou, eventualmente, nem será essa a sua finalidade mais fundamental: um dos principais propósitos do consumo será o de preencher todo o vazio social decorrente da eliminação das formas de socialização e de identidade colectiva anteriores à "revolução" neoliberal. Mais até do que preencher o vazio, a sua utilidade no seio do sociedade global é a de substituir - ele próprio - essas formas, condicionando os indivíduos no sentido de participarem socialmente de uma maneira extremamente conveniente para toda a dinâmica do sistema. Isso só é possível através de diversos mecanismos de comunicação e condicionamento de massas de entre os quais a publicidade será talvez o mais significativo, ou pelo menos um dos mais comuns.

Por outras palavras, de tão precário e volátil que o emprego se tornou, tendo a componente produtiva das empresas sido deslocada para países designados de 3ªmundo (onde estas ficam de forma quase plena a salvo de medidas protectoras dos direitos laborais e, por exemplo, leis de protecção ambiental) tendo a vida social, cultural e colectiva sido esvaziada de conteúdo por um paradigma de pensamento essencialmente economicista, nomeadamente seguindopressupostos de apropriação individual de bens materiais, resta ao indivíduo essa função de consumidor. O consumo enquanto princípio existencial, valor de pensamento e projecto de vida. O consumo enquanto meio e fim. Do ponto de vista económico, é um consumo ilimitado que permite manter as taxas de crescimento económico que se encontram na base de todo o sistema financeiro especulativo mundial, isto ao mesmo tempo que os recursos são cada vez mais escassos e, por muito que possa custar perceber, finitos .....

Uma pequena elite ávida de poder, ganância e zeros na conta bancária que continua, com a nossa conivência quase plena, a conduzir os destinos da quase totalidade da população mundial ao mesmo tempo que a Terra de todos nós, e de ninguém em particular, se continua a degradar por via de uma impiedosa exploração parasitária e insaciável.

O consumo possui hoje, portanto, um significado prático e sociológico primordial em todo um contexto determinado por um liberalismo adoptado à escala mundial: muito para além da sua função "pré-histórica" de satisfação de necessidades essenciais, actualmente, as supostas necessidades dos indivíduos - necessidades desde logo, muitas delas, artificialmente criadas pelos poderosos departamentos de marketing das principais corporações -- são o pretexto ideal para reproduzir a disseminar o consumo enquanto instituição teológica, dogma cultural e mecanismo prático de alienação colectiva, mas por via de um crescente processo de feroz competição e estratificação individual materialista.

O consumo surge como conduta activa e colectiva, como coacção e moral, como instituição também. Compõe todo um sistema de valores, com tudo o que este termo implica enquanto função de integração do grupo e de controlo social. (2) Ao Domingo já não vamos à missa, vamos ao "shopping".
Num contexto em que os mecanismos susceptíveis de modificar e configurar toda a conjuntura mundial se encontram, de uma forma ou de outra, apropriados por um conjunto restrito de poderosas corporações - detidas por um grupo restrito de indivíduos - e quando os mecanismos democráticos convencionais são cada vez menos representativos e cada vez mais inócuos - numa sociedade que tende para a homogeneização através desse propósito comum a todos que é o de consumir - um dos poucos fenómenos que parece, ainda, atribuir alguma importância ao indivíduo comum é, exactamente, o consumo. Enquanto consumidores somos teoricamente bajulados por todo o género de promoções e mimos publicitários, técnicas e tácticas de propaganda várias.

Aturdidos que estamos nesse "propósito colectivo" e paradoxalmente ferozmente individualizante que é o de consumir, a nossa consciência social, humana e ecológica é, sobremaneira, alienada e as próprias consequências inerentes ao consumo estão muito longe de ser percepcionadas por todos nós, elos cruciais que somos nas relações existentes entre as deploráveis condições produtivas nos sítios mais remotos do mundo (destruição de habitats naturais, situações de exploração laboral, mecanismos económicos de neocolonialismo) e as condições de consumo, sobretudo nos países economicamente mais poderosos, dado que somos nós que adquirimos esses produtos. Mas é importante salientar que também aí, nos países ditos desenvolvidos, existam enormes disparidades sociais e o próprio consumo não decorre de forma homogénea mas sim, e cada vez mais, é ele próprio sintomático da existência de estruturas socais piramidais, com enormes disparidades entre o topo e as bases.
Enquanto as "classes" do topo consomem produtos obscenamente luxuriosos e altamente ostentatórios, as classes das "bases" não deixam de poder participar no grande festim consumista liberal com uma cada vez maior proliferação de lojas de produtos chineses fabricados, por norma, em condições ambientais e laborais deploráveis. Mas no entanto baratos, e é isso que importa claro.

As repercussões de todo o sistema e do próprio consumo ao nível cultural também não são inestimáveis. Toda a nossa paisagem cultural, as cidades, as estradas, as ruas, os meios de comunicação, estão repletas de mensagens publicitárias induzindo mais e mais consumo. Um consumo obstinado, nada ético e que prejudica muito mais a vida e os seres vivos do que é realmente útil. Consumimos mais, muito mais, por consumir do que propriamente por necessitarmos de facto de satisfazer uma qualquer necessidade real, ou pelo menos uma necessidade que nos traga mais do que uma efémera sensação de felicidade.
Na economia mundial, os ricos tornam-se cada vez mais ricos. Vinte por cento do mundo consomem 80 por centro dos recursos - são dados do Banco Mundial. (O mundo) está cada vez mais nas mãos de 300 ou 400 famílias. Três famílias americanas - entre as quais a de Bill Gates - têm o equivalente ao produto nacional bruto, de cada ano, de 48 estados africanos que representam 600 milhões de pessoas. (3)

O que só demonstra esse propósito bem claro que o consumo adquire hoje, ou seja, o consumo do cidadão comum - cada vez mais restringido em termos de escolhas, dado que cada vez menos e mais poderosas corporações controlam cada vez mais sectores da economia - é o tributo que temos de pagar a esses novos senhores feudais globais. Isto os que podem pagar esse tributo mínimo e não se vêm atirados para o lodo da segregação social.

Como se não bastasse, e só para elucidar ainda melhor acerca da natureza doentia do consum(ism)o, a ONU calcula que o conjunto das necessidades básicas de alimentação, água potável, educação e cuidados médicos da população mundial poderia ser coberta com uma taxa de menos de 4% sobre a riqueza acumulada das 225 maiores fortunas. Satisfazer os requisitos básicos de água e saneamento de todo o mundo custaria apenas 13 biliões de dólares, sensivelmente, a mesma quantia que a população dos Estados Unidos e da União Europeia despende anualmente em perfume.(4)

A questão que urge colocar é como chegámos a este ponto de perversidade? Como é que chegamos a um ponto em que consideramos mais natural o nosso direito a adquirir produtos, mais ou menos, supérfluos de cosmética do que o direito de milhões de seres vivos a uma vida condigna?
Porque a preponderância do consumo apesar de bastante subliminar não é inocente, bem pelo contrário, nós, enquanto consumidores, possuímos uma importância muito relevante quando tomamos as decisões relativas àquilo que compramos e que utilizamos. Por vezes "pequenas" grandes opções podem, de facto, fazer bastante diferença. Existem diferenças enormes entre adquirirmos um produto fabricado na China em condições, em grande parte dos casos, deploráveis e de manifesta exploração laboral e ambiental, e um produto fabricado, por exemplo, localmente em condições das quais temos boas possibilidades de estar informados. Por quem, em que condições, com que materiais, em suma: com que pegada ecológica e social?

Em Portugal, país onde a proliferação de grandes centros comerciais e afins não cessa de aumentar, a fúria consumista é particularmente selvagem e alienadora, com os apelos e induções agressivas ao consumo a aumentaram ao mesmo ritmo que as condições sociais e também ambientais se deterioram de forma muito acentuada, mesmo que esse consumo mais não signifique do que alienação colectiva, destruição e enorme desgaste de habitats naturais, assim como lucros chorudos para grandes corporações empresariais ao mesmo tempo que o comum trabalhador é cada vez mais precário e explorado.
O Natal, Numa época natalícia, em que o aliciamento ao consum(ism)o adquire contornos de verdadeiro fenómeno de psicose colectiva, urge lançar as bases de reflexão sobre aquilo que nós próprios somos enquanto seres sociais. Será que vamos, em letárgicas visitas aos hipermercados ou mega centros comerciais, continuar a aceitar o papel de meros consumidores apáticos, e reduzir toda as nossas dimensões pessoais, sociais, humanas a uma mera escala de bens materiais que nos pretendem fazer crer ser essenciais para a nossa vida e felicidade?
Será que não podemos acreditar que uma sociedade que se designa por "de consumo", ou seja, descartável, despojada de conteúdo, desumana, se torne numa sociedade bem mais igualitária, fraterna e solidária para todos os seres?

A mudança começa em cada um de nós, na forma como pensamos, agimos e, cada vez mais, na forma como compramos também. Apesar de ser para nós a mais comum, a verdade é que existem muitas outras formas de satisfazer as nossas necessidades mais elementares, algumas delas até sem recurso ao acto de comprar propriamente dito. Possibilidades como a auto-produção, a troca, aprendermos a viver mais e mais com menos apesar de não tanto conhecidas não deixam por isso de ser menos válidas. Mesmo comprando, há muitos possibilidades de o fazermos de forma mais reflectida e moderada, nomeadamente recorrendo a modelos de comércio alternativo, nomeadamente Comércio Justo, Produtos Ecológicos e reutilizados, feitos de materiais reciclados, instituições não governamentais, sistemas de crédito não monetário, comércio de pequena escala e familiar, comércio tradicional. Originalmente o dinheiro seria como um meio intermediário das trocas comerciais. Gradualmente, e sobretudo no âmbito da nova ordem liberal, tem-se vindo a tornar num fim cada vez mais obstinado capaz de nos tornar totalmente dependentes e egoístas.

Não é por isso de admirar que, justamente em nome do dinheiro, os nossos comportamentos de consumo sejam em larga medida "irresponsáveis" e artificialmente ampliados, sem que nada disso nos traga uma felicidade que não uma meramente ilusória. É tempo de comprarmos somente aquilo que verdadeiramente necessitamos para nos podermos sentir felizes, de comprarmos somente os produtos que por detrás da publicidade, das prateleiras repletas de mil cores, das promoções e mais promoções, têm uma verdadeira história da qual se podem orgulhar, e não uma história das que chegam até nós muito mal contadas e até totalmente sonegadas: de milhares de trabalhadores do dito terceiro mundo praticamente escravizados, de multinacionais gananciosas e obstinadas em controlar o comércio mundial, de habitats naturais completamente devastados. Histórias que nós não queremos mais ouvir e ser coniventes. Podemos ser nós próprios, no simples acto de comprar, a escrever uma nova história bem mais bonita, bem mais humana, bem mais de acordo com o mundo, que no mais íntimo de nosso coração, nos atrevemos a conceber e sonhar. Todo o mundo é composto de mudança, e a mudança somos nós próprios, nós somos a mudança que queremos ver no mundo!
Para um Natal diferente, um site repleto de ideias e criatividade para um Natal não consumista e verdadeiramente natalício:
http://gaia.org.pt/econatal/


A propósito do consumo e da globalização, consumo e publicidade um livro absolutamente essencial: No Logo, de Naomi Klein, ed: Relógio de Água
(1) Chomsky, Noam. Duas horas de lucidez. Mem Martins, Editorial Inquérito.(2) Baudrillard, J. (1996). A sociedade de consumo. Lisboa, Edições 70.(3) Zanotteli cit. in. Marujo, A. (2003). Missionário "mais incómodo" de Itália quer igreja empenhada contra armamento, Público, nº4671 / 5 de Janeiro de 2003, pp. 21.(4) Ramonet, I. (1998). The politics of hunger. [Em linha]. Disponível em <_http://mondediplo.com/1998/11/01leader_>. [Consultado em 10/01/2003].

Quarta-feira, 28 de Novembro de 2007

Ja alguma vez te perguntas-te de onde vem o dinheiro?


Este video (Money as debt) explica de forma muito simples de onde vem o dinheiro. Uma verdade que todos deveriamos conhecer.

VER VIDEO

Quarta-feira, 21 de Novembro de 2007

Dia sem compras em Portugal

Para minha grande alegria descobri que o G.A.I.A. organiza um dia sem comprar em Portugal. Iupi!! Mais informações no site:

http://gaia.org.pt/semcompras/





"25 de Novembro de 2006 - DIA SEM COMPRAS,

o autoproclamado festival de celebração da vida pela vida. Um dia para te desafiares a ti, à tua família e amigos a desligar o canal shopping e sintonizar para a vida. Celebrado como um feriado por alguns, uma festa de rua por outros - qualquer pessoa pode participar, a única condição é não consumir.
Este ano a mensagem é clara: comprar menos, viver mais! Tentar uma vida simples por um dia, passando o tempo com aqueles que gostamos em vez de gastar dinheiro com eles.
É também um dia de reflexão sobre as consequências ambientais, sociais e éticas do consumismo. Os países desenvolvidos - que constituem cerca de 20% da população mundial consomem 80% dos recursos naturais do planeta, causando um nível desproporcionado de danos ambientais e uma injusta distribuição da riqueza.
Como consumidores que somos temos que questionar os produtos que compramos e quem os fabrica acerca da sua origem e processo de fabrico. Quais são os verdadeiros resíduos resultantes da sua produção? Quais as condições de trabalho e o nível de vida dos trabalhadores? O que nos leva a esta sede de comprar? Será a necessidade?
O dia sem Compras pretende ser um dia, um primeiro dia que sirva de exemplo para uma mudança de consciência e até de estilo de vida, para um consumo mais responsável e racional. Um consumo focado nas verdadeiras necessidades e tendo em conta os aspectos sociais e ambientais inerentes à preservação da Terra e ao tratamento igual que todos os seres humanos merecem. " http://gaia.org.pt/semcompras/que.html

Domingo, 18 de Novembro de 2007

DIA SEM COMPRAS


Dia sem compras!

Sábado 24 de Novembro de 2007

Os Países ricos consomem 80% dos recursos planetários.

Organiza uma acção na tua cidade
A sociedade de consumo é cega,
Não existem crescimento nem desenvolvimento infinitos num planeta com recursos limitados.
Extraímos hoje em dia o dobro dos recursos fosseis admissível, e emitimos para a atmosfera o dobro de gás carbónico do que o planeta pode absorver.
A biodiversidade está a desaparecer.
O declínio da extracção do petróleo começou hoje.
A sociedade de consumo gera pilhagem e injustiça:
20% da população do planeta, os países ricos, consomem mais de 80% dos recursos.
O nosso nível de consumo tem um preço:
A escravidão económica de populações inteiras.
A sociedade de consumo é mortífera, reduz o ser humano a agente económico:
produtor-consumidor.
Nega as nossas dimensões políticas, culturais, filosóficas, poéticas ou espirituais que são a essência da nossa humanidade.
Devemos libertar-nos deste obscurantismo que consiste em acreditar na superpotência da tecnociência e a lhe descarregar todas as nossas responsabilidades. A ciência baseia-se na dúvida e não na fé.

A esperança está em reanimar a nossa consciência e que tal se manifeste nas nossas acções quotidianas. Reencontremos a nossa capacidade de autolimitação, individualmente com a simplicidade voluntária* e colectivamente graças ao decrescimento.
Façamos um gesto simbólico, desde hoje: por um dia, este sábado 24 de Novembro... Cessemos de comprar.
Anunciar à vossa volta. Dizer aos amigos. Implicar a vossa família. Simplificar a vossa vida.
Copiem o cartaz do dia sem compras, e coloquem-no no trabalho, em casa dos vizinhos, em todo o lado a vossa volta.
Festejemos o dia sem compras.
Organiza uma acção na vossa cidade/ vila/aldeia

* brevemente serão editados neste blog artigos sobre esta questão

http://www.casseursdepub.org/


Quarta-feira, 7 de Novembro de 2007

As vantagens do decrescimento

O crescimento pelo crescimento torna-se o objetivo primordial, senão o único da vida, na sociedade capitalista, o que acarreta uma degradação progressiva do ambiente e dos recursos globais. Vivemos, atualmente, às vésperas de catástrofes previsíveis

Serge Latouche

“Pois será uma satisfação perfeitamente positiva ingerir alimentos sadios, ter menos barulho, estar num meio ambiente equilibrado, não mais sofrer restrições de circulação etc.” Jacques Ellul1

Depois de algumas décadas de desperdício frenético, entramos na zona das perturbações climáticas, das guerras do petróleo, da guerra da água...

Em 14 de fevereiro de 2002, em Silver Spring, diante dos responsáveis norte-americanos pela meteorologia, George W. Bush declarava: “Por ser a chave do progresso do meio ambiente, por fornecer os recursos que permitem investir nas tecnologias limpas, o crescimento é a solução, não o problema2.” No fundo, essa posição “pró-crescimento” também é partilhada pela esquerda, inclusive por muitos contestadores da globalização que consideram que o crescimento também é a solução para os problemas sociais, criando empregos e propiciando uma distribuição mais igualitária.

Fabrice Nicolino, por exemplo, colunista de meio ambiente do semanário parisiense Politis, próximo do movimento que contesta a globalização, demitiu-se recentemente desse jornal após um conflito interno provocado pela... reforma das aposentadorias. Seria o debate que se seguiu revelador de um mal-estar na esquerda3? A razão do conflito, considera um leitor, é provavelmente “ousar ir contra uma espécie de pensamento único, comum a quase toda a classe política francesa, que afirma que nossa felicidade deve obrigatoriamente passar por mais crescimento, mais produtividade, mais poder aquisitivo e, portanto, mais consumo4.

Crescimento, o único objetivo da vida

Para conciliar as contradições entre o crescimento e o respeito pelo meio ambiente, os especialistas pensam encontrar a poção mágica na ecoeficiência

Depois de algumas décadas de desperdício frenético, parece que entramos na zona das tempestades – no sentido próprio e no figurado... As perturbações climáticas são acompanhadas pelas guerras do petróleo, que serão seguidas pela guerra da água5, mas também por possíveis pandemias, desaparecimento de espécies vegetais e animais essenciais como conseqüência de catástrofes biogenéticas previsíveis.

Nessas condições, a sociedade de crescimento não é sustentável, nem desejável. É urgente, portanto, que se pense numa sociedade de “decrescimento”, se possível serena e convivial.

A sociedade de crescimento pode ser definida como uma sociedade dominada por uma economia de crescimento, precisamente, e que tende a se deixar absorver por ela. O crescimento pelo crescimento torna-se assim o objetivo primordial, senão o único da vida. Uma tal sociedade não é sustentável, porque se choca com os limites da biosfera. Se tomarmos, como índice do “peso” para o meio ambiente de nosso modo de vida, “a marca” ecológica deste último em superfície terrestre necessária, obteremos resultados insustentáveis, tanto do ponto de vista da eqüidade nos direitos de retirada da natureza, quanto do ponto de vista da capacidade de regeneração da biosfera. Um cidadão dos Estados Unidos consome em média 9,6 hectares, um canadense 7,2, um europeu médio 4,5. Estamos, portanto, muito distantes da igualdade planetária e mais ainda de um modo de civilização sustentável, que precisaria se limitar a 1,4 hectare, admitindo-se que a população atual permaneça estável7.

A fé na ciência dos economistas

Se acompanharmos o raciocínio de Ivan Illich, o desaparecimento programado da sociedade de crescimento não é necessariamente uma má notícia

Para conciliar os dois imperativos contraditórios do crescimento e do respeito pelo meio ambiente, os especialistas pensam encontrar a poção mágica na ecoeficiência, peça central e, a bem dizer, a única base séria do “desenvolvimento sustentável”. Trata-se de reduzir progressivamente o impacto ecológico e a intensidade da retirada dos recursos naturais até atingir um nível compatível com a capacidade reconhecida de carga do planeta7.

É incontestável que a eficiência ecológica tem aumentado de maneira notável, mas, ao mesmo tempo, a perpetuação do crescimento desenfreado acarreta uma degradação global. As baixas de impactos e de poluição por unidade de mercadoria produzida são sistematicamente invalidadas pela multiplicação do número de unidades vendidas (fenômeno ao qual se deu o nome de “efeito retorno”). A “nova economia” é, na verdade, relativamente imaterial ou menos material, mas ela mais complementa do que substitui a anterior. No final das contas, todos os indicadores demonstram que as retiradas continuam a crescer8.

Enfim, é preciso a fé inabalável dos economistas ortodoxos para pensar que a ciência do futuro resolverá todos os problemas, e que é concebível a substituição ilimitada da natureza pelo artifício.

Elevação do nível de vida é ilusória

A sociedade de crescimento produz um aumento das desigualdades e das injustiças, cria um bem-estar ilusório e não promove uma sociedade convivial

Se acompanharmos o raciocínio de Ivan Illich, o desaparecimento programado da sociedade de crescimento não é necessariamente uma má notícia. “A boa notícia é que não é primeiramente para evitar os efeitos secundários negativos de uma coisa que seria boa em si que precisamos renunciar a nosso modo de vida – como se tivéssemos que optar entre o prazer de um alimento delicioso e os riscos aferentes. Não, é que o alimento é intrinsecamente ruim, e que seríamos bem mais felizes ao evitá-lo. Viver de outra maneira para viver melhor9.”

A sociedade de crescimento não é desejável, pelo menos por três razões: produz um aumento das desigualdades e das injustiças, cria um bem-estar amplamente ilusório, e não promove, para os próprios “favorecidos”, uma sociedade convivial, mas uma anti-sociedade doente devido à sua riqueza.

A elevação do nível de vida de que pensa se beneficiar a maioria dos cidadãos do hemisfério Norte é cada vez mais ilusória. É claro que gastam mais, em termos de compra de bens e serviços, mas esquecem de deduzir a elevação superior dos custos. Esta última assume formas diversas, mercantis e não mercantis: degradação da qualidade de vida – não quantificada, mas sofrida (ar, água, meio ambiente) –, despesas de “compensação” e de reparação (medicamentos, transportes, lazer) que se tornaram necessárias na vida moderna, elevação dos preços dos artigos escassos (água engarrafada, energia, espaços verdes...).

Decrescimento não é crescimento negativo

A partir da década de 70, o índice de progresso real estagnou, e até regridiu, para os Estados Unidos, enquanto o do PIB não pára de aumentar

Herman Daly estabeleceu um índice sintético, o Genuine Progress Indicator (Indicador de Progresso Autêntico - IPA) que corrige, por exemplo, o Produto Interno Bruto (PIB) das perdas causadas pela poluição e pela degradação do meio ambiente. A partir da década de 70, o índice de progresso real estagnou, e até regridiu, para os Estados Unidos, enquanto o do PIB não pára de aumentar10. É lamentável que, na França, ninguém ainda se tenha encarregado de fazer esses cálculos. Temos todos os motivos para pensar que o resultado seria comparável. Seria o mesmo que dizer que, nessas condições, o crescimento é um mito, até no interior do imaginário da economia de bem-estar, muito mais na sociedade de consumo! Pois o que cresce de um lado, decresce muito mais do outro.

Infelizmente tudo isso não basta para nos levar a abandonar o bólido que nos conduz diretamente para o impasse, e a embarcar na direção oposta.

Compreendamos bem. O decrescimento é uma necessidade: não é, de saída, um ideal, nem o único objetivo de uma sociedade de pós-desenvolvimento ou de um outro mundo possível. Mas façamos das tripas coração, e admitamos, para as sociedades do hemisfério Norte, o decrescimento como um objetivo do qual se pode tirar proveito. A palavra de ordem de decrescimento tem sobretudo como finalidade marcar nitidamente o abandono do objetivo insensato do crescimento pelo crescimento. Em particular, o decrescimento não é o crescimento negativo, expressão contraditória e absurda que traduz bem a dominação do imaginário do crescimento. Isso quereria dizer ao pé da letra: “avançar recuando”. A dificuldade em que nos encontramos para traduzir “decrescimento” em inglês é muito reveladora dessa dominação mental do economês, e simétrica, de alguma forma, da impossibilidade de traduzir crescimento ou desenvolvimento (mas também, naturalmente, decrescimento...) nas línguas africanas.

O impacto sobre o meio ambiente

A dificuldade em traduzir “decrescimento” para o inglês é simétrica à impossibilidade de traduzir desenvolvimento nas línguas africanas

Sabe-se que a simples desaceleração do crescimento mergulha nossas sociedades no desespero devido ao desemprego e ao abandono dos programas sociais, culturais e ambientais que garantem um mínimo de qualidade de vida. Imagine-se que catástrofe seria uma taxa de crescimento negativo! Da mesma forma que não há nada pior do que uma sociedade trabalhista sem trabalho, não há nada pior do que uma sociedade de crescimento sem crescimento. É o que condena a esquerda institucional ao social-liberalismo, por não ousar fazer a descolonização do imaginário. O decrescimento, portanto, só é concebível numa “sociedade de decrescimento”. É conveniente determinar bem seus contornos.

Uma política de decrescimento poderia consistir inicialmente em reduzir, e até suprimir, o peso sobre o meio ambiente das cargas que não trazem benefício algum. O questionamento do volume considerável dos deslocamentos de homens e de mercadorias através do planeta com o impacto negativo correspondente (portanto, uma “relocalização” da economia), o questionamento do volume não menos considerável da publicidade exagerada e freqüentemente nefasta e, enfim, o questionamento da obsolescência acelerada dos produtos e dos aparelhos descartáveis, sem outra justificativa a não ser fazer com que gire cada vez mais depressa a megamáquina infernal, são reservas representativas de decrescimento no consumo material.

“Consumo e estilos de vida”

Entendido desta forma, o decrescimento não significa necessariamente uma regressão do bem-estar. Em 1848, para Karl Marx, havia chegado o tempo da revolução social e o sistema estava pronto para a passagem à sociedade comunista de abundância. A inacreditável superprodução material de tecidos de algodão e de bens manufaturados parecia-lhe mais do que suficiente, uma vez abolido o monopólio do capital, para alimentar, alojar e vestir corretamente a população (pelo menos a ocidental). E, no entanto, a “riqueza” material era infinitamente menor do que hoje. Não havia carros, nem aviões, nem plástico, nem máquinas de lavar, nem geladeiras, nem computadores, nem as biotecnologias, nem também os pesticidas, os adubos químicos ou a energia atômica! Apesar das alterações inauditas da industrialização, as necessidades ainda eram modestas e era possível satisfazê-las. A felicidade, quanto à sua base material, parecia ao alcance da mão.

Para conceber a sociedade de decrescimento deve-se questionar a dominação da economia sobre a vida na teoria e na prática – e sobretudo em nossas cabeças

Para conceber a sociedade de decrescimento sereno e chegar a ela, é preciso literalmente sair da economia. Isto significa questionar a dominação da economia sobre o resto da vida na teoria e na prática, mas sobretudo em nossas cabeças. A redução feroz do tempo de trabalho imposto para garantir a todos um emprego satisfatório é uma condição prévia. Em 1981, Jacques Ellul, um dos primeiros pensadores de uma sociedade de decrescimento, já fixava como objetivo para o trabalho, não mais do que duas horas por dia11. Inspirando-se na carta de princípios “Consumo e estilos de vida”, proposta ao Fórum das Organização Não Governamentais (ONG) durante a reunião de 1992 no Rio, é possível sintetizar tudo isso num programa em seis “R”: Reavaliar, Reestruturar, Redistribuir, Reduzir, Reutilizar, Reciclar. Estes seis objetivos interdependentes formam um círculo virtuoso de decrescimento sereno, convivial e sustentável. Poder-se-ia até aumentar a lista dos “R” com reeducar, reconverter, redefinir, remodelar, repensar etc., e, é claro, relocalizar, mas todos esses “R” estão mais ou menos incluídos nos seis primeiros.

A descolonização do imaginário

Vê-se imediatamente quais são os valores que devem ser privilegiados e que deveriam ser prioritários em relação aos valores dominantes atuais. O altruísmo deveria preceder o egoísmo, a cooperação, preceder a competição desenfreada, o prazer do lazer, preceder a obsessão pelo trabalho, a importância da vida social, preceder o consumo ilimitado, o gosto pela bela obra, preceder a eficiência produtivista, o razoável, preceder o racional etc. O problema é que os valores atuais são sistêmicos. Isso significa que são suscitados e estimulados pelo sistema e que, em contrapartida, contribuem para reforçá-lo. É claro que a escolha de uma ética pessoal diferente, como a simplicidade voluntária, pode mudar a direção da tendência e solapar as bases imaginárias do sistema, mas sem um questionamento radical deste último, a mudança corre o risco de ser limitada.

Dirão que é um programa amplo e utópico? Será que a transição é possível sem uma revolução violenta – ou, mais precisamente, poderá a necessária revolução mental ser feita sem violência social? A limitação drástica dos ataques ao meio ambiente e, portanto, da produção de valores de troca incorporados em suportes materiais físicos não implica, necessariamente, numa limitação da produção de valores de uso através de produtos imateriais. Estes, pelo menos em parte, podem conservar uma forma mercantil.

No entanto, se o mercado e o lucro persistirem como incentivos, não podem mais ser os fundamentos do sistema. Podem ser concebidas medidas progressivas constituindo etapas, mas é impossível dizer se serão passivamente aceitas pelos “privilegiados”, que seriam suas vítimas, nem pelas atuais vítimas do sistema, que são mental e fisicamente “drogados” por ele. Entretanto, a preocupante onda de calor de 2003 no Sudoeste da Europa agiu muito mais do que todos os nossos argumentos no sentido de convencer sobre a necessidade de se orientar para uma sociedade de decrescimento. Dessa forma, para realizar a necessária descolonização do imaginário, pode-se, no futuro, contar muito amplamente com a pedagogia das catástrofes.

Serge Latouche

(Trad.: Regina Salgado Campos)

1 - Entrevista com Jacques Ellul, Patrick Chastenet, La table ronde, Paris, 1994, p. 342.
2 - Le Monde, 16 de fevereiro de 2002.
3 - Fabrice Nicolino, "Retraite ou déroute?", Politis, 8 de maio de 2003. A crise foi agudizada por fórmulas contestáveis de Fabrice Nicolino qualificando o movimento social de "festival de gritaria corporativista", ou invocando "o senhor que quer continuar a se aposentar aos 50 anos - muito bem!, ele dirige trens, é a mina, é Germinal!".
4 - Politis, 12 de junho de 2003.
5 - Vandana Shiva, La guerre de l’eau. Parangon, 2003.
6 - Gianfranco Bologna (org.), Italia capace di futuro. WWF-EMI, Bologne, 2001, pp. 86-88.
7 - The Business case for sustanable developpement. Documento do World Business Counsil for Sustanable Developpement para Johannesburgo.
8 - Mauro Bonaiuti, "Nicholas Georgescu-Roegen. Bioeconomia. Verso un’altra economia ecologicamente e socialmente sostenible". Bollati Boringhieri, Torino, 2003. Especialmente, pp. 38-40.
9 - Jean-Pierre Dupuy, “ Ivan Illich ou la bonne nouvelle ”, Le Monde, 27 de dezembro de 2002.
10 - C. Cobb, T. Halstead, J. Rowe, “ The Genuine Progress Indicator: Summary of Data and methodology, Redefining Progress ”, 1995 e dos mesmos, “ If the GDP is Up, Why is America Down ? ”, in Athlantic Monthly, n° 276, San Francisco, outubro de 1995.
11 - Ler “Changer de révolution”, citado por Jean-Luc Porquet in Ellul L’homme qui avait (presque) tout prévu, Le cherche midi, 2003, pp. 212-213.

Monde diplomatique (brasil)- Edições mensais, Novembro 2003

http://diplo.uol.com.br/2003-11,a797

Quinta-feira, 1 de Novembro de 2007

O pico do petróleo foi em 2006

Novo estudo mostra que o declínio na produção de petróleo pode trazer riscos de guerra e incerteza.

  • A produção de petróleo atingiu o seu pico em 2006 e cairá todos os anos

  • Um declínio na produção de gás, carvão e urânio está igualmente previsto

A produção mundial de petróleo já atingiu o seu pico e cairá para metade em 2030, de acordo com um relatório que alerta igualmente que esta escassez de combustíveis fosseis poderá iniciar guerras e rupturas sociais. Um grupo alemão de monitorização da energia (EWG) divulgou a 22 de Outubro, 2007, um estudo que mostra que a produção global de petróleo atingiu o seu pico em 2006 - bastante mais cedo do que a grande parte dos peritos previram. O relatório, que prevê uma descida percentual na produção por ano, chega após os preços do petróleo ter atingido novos recordes quase todos os dias na semana precedente, atingindo nessa sexta feira mais de 90$ o barril.
“Em breve o mundo não poderá produzir todo o petróleo que necessita, pois a procura está a aumentar enquanto a oferta esta a diminuir. Este é um enorme problema para a economia mundial.” Disse Hans-Josef Fell, fundador do EWG. O autor do relatório, Joerg Schindler, disse que a descoberta mais alarmante foi o declínio da produção de petróleo se produzir por saltos depois do pico, que já ultrapassámos segundo o autor. Estes resultados contrastam com as projecções da agência internacional da energia, que diz que existe poucas razões para nos preocuparmos com as reservas de petróleo neste momento. No entanto, o estudo do EWG baseia-se sobretudo na produção actual do petróleo, dados que, segundo o relatório, são mais fiáveis que as estimativas das reservas subterrâneas. O grupo afirma que as estimativas oficiais da indústria são de 1.255 giga barris – equivalente a 42 anos de abastecimento à taxa de consumo actual. Mas pensa-se que afinal estas são de apenas 2 terços desse número.A produção global actualmente é de 81 milhões de barris por dia – os peritos da EWG estimam que caia para 39 milhões em 2030. Prevê também fortes descidas na produção de gás, carvão e urânio pois estão a esgotar-se, produção britânica atingiu o seu pico em 1999 e já caiu para metade. O relatório apresenta uma visão sombria do futuro a não ser que uma abordagem radicalmente diferente seja adoptada. Este cita o economista britânico David Fleming: “A escassez antecipada do abastecimento poderá facilmente levar a cenários perturbantes de massas em fúria como as da Birmânia este mês. Para o governo, a indústria e para o grande público, apenas passar atabalhoadamente pela situação já não é uma opção pois esta situação pode sair completamente fora de controlo e tornar-se na total liquefacção da sociedade.”Schnidler chega à mesma conclusão: “O mundo está no início de uma mudança estrutural do seu sistema económico. Esta mudança será despontada pelo declínio do abastecimento de combustíveis fosseis e irá influenciar todos os aspectos da nossa vida quotidiana.”.

Jeremy Leggett, um dos ambientalistas britânicos mais proeminentes e autor de Half Gone, um livro sobre o “pico do petróleo” – definido como o momento em que a produção máxima é atingida, afirmou que tanto o governo britânico como a indústria da energia estão em “negação institucionalizada” e que medidas activas já deviam ter sido tomadas.
“Quando eu era conselheiro do governo, propus que fosse constituída uma “força de acção” para ver quão rapidamente o Reino Unido conseguia usar as tecnologias das energias alternativas in extremis, como o pico,” afirmou. “Outros conselheiros da indústria apoiaram essa ideia. Mas o governo prefere adormecer o assunto sem sequer fazer um estudo de contingência. Para todos os que sabemos que um pico do petróleo prematuro apresenta um perigo presente é impossível compreender uma tal complacência.” Fell afirmou que o mundo tinha que se orientar rapidamente para o emprego massivo de energias renováveis e para um aumento drástico da eficiência energética, ambos como forma de combater as mudanças climáticas e de forma a assegurar que as luzem fiquem acesas. “Se fizermos tudo isto podemos não ter uma crise energética.”

Ele acusa o governo britânico de hipocrisia. “Tony Blair e Gordon Brown têm falado muito sobre as mudanças climáticas mas não puseram em prática nenhuma politica decente de aumento do uso das renováveis (energias),” afirmou. “é por isso que andam a falar do nuclear e da captura e do armazenamento de carvão.”

Ontem, um relações públicas do departamento de negócios e empresas disse:

“Nos próximos anos a produção e capacidade de refinamento global de petróleo vai aumentar mais rapidamente que a procura. Os recursos petrolíferos mundiais são suficientes para manter o crescimento económico para o futuro próximo. O desafio vai ser trazer esses recursos para o mercado de forma a assegurar a sustentabilidade, a tempo, de confiança e barato das fontes de energia.”

A politica germânica, que garante pagamentos acima dos preços do mercado as energias renováveis, está a ser adoptada em muitos países, mas não na Grã-Bretanha, onde as energias renováveis geram cerca de 4% da electricidade do país e 2% da energia total necessária.

Ashley Seager

Segunda feira, 22 de Outubro, 2007
The Guardian

http://www.guardian.co.uk/oil/story/0,,2196435,00.html

Mais informações sobre o pico do petróleo - http://peakoilportuguese.blogspot.com/